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Bebês e crianças podem consumir leites vegetais?

Bebês e crianças podem consumir leites vegetais?

Nos dois últimos posts eu falei sobre os aspectos nutricionais dos leites vegetais e sugeri algumas receitas bacanas com eles, aproveitando também seus resíduos.

Entretanto, vimos que as bebidas às quais chamamos de leites vegetais apresentam uma composição completamente diferente da composição do leite de mamíferos. Se para adultos essa questão já requer um cuidado extra, para bebês e crianças é preciso ainda mais cautela.

Para falar sobre isso, eu convidei minha querida amiga Marina Campos, especialista em Nutrição Materno Infantil, para escrever comigo o tema de hoje.

É crescente o número de crianças que vêm sendo diagnosticadas com alergia à proteína do leite de vaca (APLV) e também de crianças cujos pais são veganos e pretendem educar seus filhos conforme esse estilo de vida e opção alimentar.

Vale lembrar que a APLV é uma condição totalmente diferente da intolerância à lactose (IL). A APLV envolve o sistema imune, é provocada pela proteína do leite de vaca e pode gerar reações graves, já a IL não envolve o sistema imune e é causada por uma deficiência de lactase, enzima responsável pela digestão da lactose, o que causa, de modo geral, sintomas gastrointestinais (diarreia, distensão abdominal e gases). A IL não é comum nos primeiros dois anos de vida, muito diferente da APLV, que tem sua maior incidência nesta faixa etária.

Neste contexto, muitos pais ficam em dúvida se podem oferecer leites vegetais para seus filhos, de modo a substituir o leite de vaca.

Vamos explicar melhor a seguir, mas, definitivamente, bebidas vegetais à base de grãos e castanhas (caseiras ou industrializadas) não devem ser utilizadas por crianças com menos de 2 anos de idade como substitutos do leite materno.

A primeira coisa que nós gostaríamos de reforçar é que o Ministério da Saúde preconiza o aleitamento materno exclusivo (sem água, chás, sucos ou alimentos sólidos) até os 6 meses de idade, podendo se estender até os 2 anos (ou mais), em conjunto com a alimentação complementar.

Se o bebê for diagnosticado com APLV, que é uma das alergias alimentares mais comum nesta faixa etária, o aleitamento materno não só pode, como deve ser mantido. A mamãe que amamenta deve apenas realizar uma dieta de exclusão total do leite e de traços de leite, orientada por um nutricionista, para evitar carências nutricionais, e assim poderá amamentar normalmente.

 

DIFICULDADES NO ALEITAMENTO MATERNO E FÓRMULAS INFANTIS

Existem inúmeras dificuldades no processo da amamentação, nós sabemos. Mas existem também muitos serviços de consultoria de amamentação, e materiais online que auxiliam as mamães nesse processo, para evitar ao máximo a introdução de opções alternativas ao leite materno.

Mesmo assim, no caso da impossibilidade do aleitamento materno, poderão ser utilizadas fórmulas infantis, que são produtos em forma líquida ou em pó, especialmente fabricados para satisfazer, por si só, as necessidades nutricionais dos lactentes. Essas fórmulas devem ser prescritas pelo pediatra e/ou nutricionista, conforme cada caso.

Aproveitamos para reforçar que o leite de vaca integral, propriamente, não é recomendado para crianças com menos de 1 ano de idade, pois sua composição é totalmente inadequada – quantidades excessivas de proteínas e alguns minerais (cálcio, sódio, potássio, etc) e muito pobre em outros micronutrientes (ferro, zinco e vitaminas) – o que sobrecarrega o organismo do bebê e é uma das maiores causas de anemia em lactentes.

Não vamos entrar aqui no mérito da questão se as fórmulas infantis contêm alguns ingredientes que talvez não precisariam conter, como alguns aditivos químicos. Mas, até o momento, apenas a indústria conseguiu simular a composição do leite materno de forma segura para o adequado crescimento e desenvolvimento dos bebês.

 

ALERGIAS ALIMENTARES

As fórmulas infantis apresentam uma composição específica para cada fase do bebê (0 a 6 meses; 6 a 12 meses; 12 a 36 meses) e, em geral, possuem componentes do leite de vaca nessa composição.

Se o bebê for diagnosticado com APLV, na impossibilidade do aleitamento materno, é consenso que sejam prescritas fórmulas infantis especiais, contendo proteínas hidrolisadas ou aminoácidos livres até, pelo menos, os 2 anos de idade.

As fórmulas infantis à base de soja não são recomendadas para bebês com menos de 6 meses, porque a soja também apresenta um potencial alergênico. E mesmo após este período, deve ser utilizada apenas com prescrição de um médico ou nutricionista, uma vez que sua indicação dependerá do tipo de alergia alimentar da criança, entre outros fatores.

Reforçamos aqui que, independentemente do tipo de fórmula, ela deve ser prescrita pelo pediatra e/ou nutricionista caso a caso.

 

BEBÊS VEGANOS: É POSSÍVEL?

No caso de bebês que não recebem mais leite materno e cujos pais são veganos, as coisas se tornam um pouco mais complicadas.

Isso porque, além de as fórmulas à base de soja não serem a melhor opção para bebês, ainda existem outros ingredientes nesses produtos que são de origem animal, como por exemplo a vitamina D3, geralmente extraída da cera da lã de ovelha, e os ácidos graxos EPA e DHA, oriundos de óleos de peixe, entre outros, eventualmente. (Hoje já é possível encontrar vitamina D3, EPA e DHA de fontes veganas alternativas, mas, nas fórmulas infantis, normalmente utilizam-se os convencionais extraídos de fontes animais.)

Dessa forma, só é possível que um bebê seja vegano e saudável se ele receber leite materno exclusivamente até os 6 meses, e se, após isso, o leite materno for mantido em conjunto com a alimentação complementar vegana (futuramente terá newsletter a respeito).

As bebidas vegetais à base de grãos e castanhas não devem ser oferecidas aos bebês veganos com o objetivo de substituir o leite materno, visto que não possuem uma composição que atende às necessidades nutricionais do bebê.

Apesar disso, as castanhas e outras sementes oleaginosas podem estar presentes na alimentação complementar das crianças a partir dos 6 meses de idade (veja aqui mais detalhes), desde que o consumo deste tipo de alimento seja habitual na família e que a criança seja exposta regularmente após a primeira oferta. Caso se perceba alguma alergia é fundamental procurar auxílio médico imediatamente.

 

CRIANÇAS A PARTIR DE 2 ANOS PODEM CONSUMIR LEITES VEGETAIS COM CAUTELA

As crianças que foram diagnosticadas com APLV quando bebês devem ser acompanhadas pelo pediatra regularmente para avaliar se a alergia persiste após os 2 anos de idade. Deve-se considerar ainda a chamada reação cruzada, em que a soja, castanhas, amendoim, nozes e outras sementes oleaginosas também podem ser potencialmente alergênicas para essas crianças.

Caso a criança não tenha alergia, e se ela passou pelo processo normal de introdução de alimentos e está recebendo a mesma alimentação da família, é possível a inclusão de leites vegetais como parte de uma rotina alimentar normal. Entretanto, os mesmos cuidados que valem para os adultos também valem para as crianças.

O leite vegetal, geralmente, não possui a mesma quantidade de proteínas e cálcio que o leite de vaca e, portanto, esses nutrientes devem ser obtidos a partir da ingestão de uma boa variedade de outros alimentos, como cereais integrais, leguminosas, oleaginosas (se a criança não tiver alergias), e verduras verde-escuras, principalmente. Se necessário, a suplementação de cálcio também pode ser utilizada, sempre prescrita por um médico ou nutricionista.

Em todos os casos aqui citados nós recomendamos o acompanhamento regular por um nutricionista para que a alimentação seja orientada adequadamente, evitando-se deficiências nutricionais que possam afetar o crescimento e o desenvolvimento das crianças.

Se você deseja saber mais a respeito ou agendar uma consulta, entre em contato conosco.

Aproveito também para contar que a Marina Campos faz um lindo trabalho com atendimentos lúdicos para crianças na Casa de Nutrir, em Pinheiros, São Paulo. Para saber mais veja aqui.

 

Fotos: Casa de Nutrir
Até breve! Seguimos!

Natália Utikava
Nutricionista
CRN/SP 40.387
(11) 95745-0026

 


P.S.: Esse conteúdo é meramente informativo e não substitui o atendimento nutricional individualizado. Dependendo da fase da vida, ou de alguma condição clínica particular são necessários alguns ajustes, e mesmo suplementação, que somente um profissional especializado poderá orientar. Se você deseja adequar sua alimentação conforme sua rotina, fase da vida e necessidades, entre em contato para agendar uma consulta.


Posted by Natália Utikava in Nutrição vegetariana
Um chai indiano e uma seleção de receitas com leites vegetais

Um chai indiano e uma seleção de receitas com leites vegetais

No post anterior eu falei sobre os leites vegetais, destacando que o valor nutricional dessas bebidas é bem diferente do leite animal. Em geral, são pobres em proteínas e em cálcio, sejam feitos em casa ou pela indústria.

Por isso, para substituir os nutrientes que o leite animal fornece, é fundamental ter uma alimentação variada, contendo diversos cereais integrais, leguminosas (feijões), castanhas, e vegetais verde folhosos (ex.: couve, brócolis, acelga, coentro e salsinha).

Mas os leites vegetais são substitutos culinários interessantes, podendo fazer parte de preparações habituais na nossa cozinha e, oferecendo ainda, a oportunidade de aproveitar os resíduos incrementando outras receitas.

Hoje eu trago uma receita bem fácil que eu adoro, emprestada do oriente – um masala chai indiano com leite de coco caseiro, para tomar em companhia de alguém querido e um bom papo.

 

 

E para fazer um contraponto de culturas e valorizar os alimentos regionais, minha sugestão é preparar o cuscuz de tapioca bem bacana do site Tempero Alternativo, aproveitando o resíduo do leite de coco.

Quer mais receitas utilizando leites vegetais e resíduos? Veja essa seleção especial que eu fiz para te motivar a se aventurar na cozinha!

Salgadas:

  • Macarrão de pupunha com molho bechamel de leite de castanha do pará – Por FruFruta
  • Moqueca de jaca verde – Por Bela Gil
  • Pastinha de azeitonas verdes – Por Veganana
  • Crackers de polpa de amêndoas com alecrim e passas – Por Veganana
  • Requeijão de castanha de caju – Por Patricia Helu (pode ser feito com o resíduo do leite de castanhas também)

Doces:

Se fizer alguma, me mande uma foto contando se gostou!

Até breve! Seguimos!

Natália Utikava
Nutricionista
CRN/SP 40.387
(11) 95745-0026

 


P.S. I: É importante ressaltar que o uso de leites vegetais para bebês e crianças tem restrições importantes. O tema da próxima newsletter será sobre isso, mas em caso de dúvidas, entre em contato comigo.

P.S. II: Esse conteúdo é meramente informativo e não substitui o atendimento nutricional individualizado. Dependendo da fase da vida, ou de alguma condição clínica particular são necessários alguns ajustes, e mesmo suplementação, que somente um profissional especializado poderá orientar. Se você deseja adequar sua alimentação conforme sua rotina, fase da vida e necessidades, entre em contato para agendar uma consulta.


Posted by Natália Utikava in Nutrição vegetariana, Receitas vegetarianas
Sobre leites vegetais

Sobre leites vegetais

Cada vez mais os leites vegetais têm conquistado espaço no cotidiano das pessoas como uma alternativa ao consumo do leite de vaca. Condições como intolerância à lactose, alergia à proteína do leite de vaca e síndrome do ovário policístico vêm sendo melhor diagnosticadas atualmente, e as evidências científicas têm confirmado que excluir o leite de vaca nessas condições parece ser bastante favorável. Além, é claro, do público vegano, que opta por excluir todo o e qualquer produto de origem animal do consumo pessoal.

Mas talvez a primeira coisa que eu preciso te falar sobre leites vegetais é: não existem leites vegetais.

Leite é o nome dado ao alimento produzido pelas glândulas mamárias das fêmeas de mamíferos. Esse alimento tem uma composição extremamente complexa, e é destinado ao consumo dos animais nascidos de cada espécie, por um determinado período, até o desmame completo.

Nós acabamos “emprestando” o leite de outras espécies por algumas conveniências, por questões culturais, e até emocionais, mas, teoricamente, nós não precisamos do leite de outras espécies de mamíferos.

O leite [de mamíferos] apresenta na sua composição uma combinação muito inteligente de carboidratos, proteínas, gorduras, vitaminas e minerais diversos, como o cálcio, e outras substâncias importantes para os filhotes, como anticorpos, enzimas, e fatores de crescimento produzidos pela própria fêmea para favorecer o desenvolvimento saudável, prebióticos, probióticos, entre inúmeras outras.

Isso, em se falando de leite cru, porque quando o leite é submetido a procedimentos de pasteurização ou esterilização, uma quantidade considerável dessas substâncias se perde ou tem sua estrutura modificada. (A comercialização de leite cru é proibida no Brasil e se quiser saber mais sobre o assunto, veja o documentário “Milk?”).

As bebidas feitas com castanhas e grãos podem ser substitutos culinários do leite, e até cumprem bem o seu papel em algumas receitas. Contudo, estamos comparando alimentos completamente distintos do ponto de vista estrutural e, com isso, o valor nutricional também é muito diferente. Os nutrientes mais importantes do leite de vaca são as proteínas e o cálcio, enquanto nos “leites” vegetais isso vai variar conforme o ingrediente com o qual eles forem feitos.

Então vamos pensar juntos.

Uma receita básica de “leite” de amêndoas leva 1 xícara de amêndoas (aproximadamente 100 g) para 4 copos de água (800 mL ou 800 g). Deixamos de molho por cerca de 8 a 12 horas na água filtrada, depois batemos no liquidificador e coamos numa peneira ou coador de voal.

A maioria dos textos que a gente lê por aí sobre o leite de amêndoas diz que ele é super rico em proteínas e em cálcio. Não é verdade. As amêndoas sim apresentam uma boa quantidade desses dois nutrientes. O líquido extraído, não sabemos. Até o momento nós não temos tabelas de composição de alimentos confiáveis que tenham quantificado os nutrientes de receitas caseiras de leites vegetais.

A maior parte dos nutrientes das amêndoas ficam retidos no resíduo que sobra, e não no líquido. Então o problema estaria resolvido se nós consumíssemos todo o resíduo, certo?

Depende.

Abaixo eu te apresento uma tabela em que eu comparo 100 g de leite de vaca integral (cerca de ½ copo), a mesma quantidade de um leite de amêndoas industrializado, 100 g das amêndoas cruas (o equivalente a uma receita do leite caseiro que mencionei), e 100 g do leite de amêndoas caseiro SEM coar, simulando que você consiga aproveitar todo o resíduo desse leite vegetal.

Fonte dos dados: Tabela de composição de alimentos do IBGE (2011), rótulo da Bebida Orgânica à Base de Amêndoa IsolaBio (jan/2017).

Percebe as diferenças?

O leite de vaca tem 3,6 vezes mais proteínas que o leite de amêndoas industrializado e 1,3 vezes mais proteínas que o caseiro sem coar. Quanto ao cálcio, a bebida industrializada não menciona no rótulo a quantidade do nutriente, mas o leite de amêndoas caseiro sem coar apresenta 4x menos cálcio que o leite de vaca.

Imagina coando e desprezando o resíduo!

De acordo com os critérios da ANVISA (resolução 54/2012), o leite de vaca pode ser considerado fonte de proteínas de cálcio, porque contém mais de 6 g de proteínas na porção de 200 mL, além de oferecer mais de 15% das necessidades diárias de cálcio. Já o de amêndoas não se enquadra nos critérios, não sendo, portanto, fonte desses nutrientes.

E esse é apenas o exemplo de um leite vegetal feito com uma das oleaginosas mais ricas em cálcio, mas não será diferente se seguirmos o mesmo raciocínio com um leite à base de cereais, como o de aveia ou quinoa.

Assim, os leites vegetais não são bons substitutos nutricionais do leite de vaca para proteínas e cálcio.

Exceto se eles forem industrializados e fortificados com esses nutrientes. E para as bebidas industrializadas à base de soja existe uma legislação específica que garante os níveis mínimos de proteínas. Mas aí eu te lembro da minha primeira newsletter aqui, em que eu falo sobre os outros problemas associados aos alimentos ultraprocessados, com todos os seus aditivos e produção de um lixo extra da embalagem.

Resumindo: consuma leites vegetais sim, crie, invente receitas, faça e aconteça! Mas saiba que as suas proteínas e o cálcio não estão garantidos somente com eles.

Assim, a melhor dica que eu posso te dar quanto a isso é: mantenha uma alimentação variada, contendo diversos cereais integrais, leguminosas (feijões), as próprias castanhas, e vegetais verde folhosos (ex.: couve, brócolis, acelga, coentro e salsinha). Dessa forma, você receberá diversos outros nutrientes além das proteínas e do cálcio, e ainda consome mais fibras e outros compostos funcionais valiosos. E inclua sim os leites vegetais, mas de forma consciente, ok?

Para dar continuidade no tema, na minha próxima newsletter vou te enviar uma das minhas receitas favoritas com leites vegetais, além de uma seleção especial com receitas que utilizam tanto as leites vegetais quanto os resíduos!

Dúvidas? Me escreva!

Até breve! Seguimos!

Natália Utikava
Nutricionista
CRN/SP 40.387
(11) 95745-0026


P.S. I: É importante ressaltar que o uso de leites vegetais para bebês e crianças tem restrições importantes e eu falarei sobre isso em breve. Em caso de dúvidas, entre em contato comigo.

P.S. II: Esse conteúdo é meramente informativo e não substitui o atendimento nutricional individualizado. Dependendo da fase da vida, ou de alguma condição clínica particular são necessários alguns ajustes, e mesmo suplementação, que somente um profissional especializado poderá orientar. Se você deseja adequar sua alimentação conforme sua rotina, fase da vida e necessidades, entre em contato para agendar uma consulta.


Posted by Natália Utikava in Nutrição vegetariana