Sobre comer com atenção plena e outras questões…

Essa semana eu postei na minha página do Facebook um infográfico com algumas dicas sobre o comer com atenção plena, conhecido em inglês pelo termo mindful eating.

De acordo com The Center for Midful Eating, os princípios do comer com atenção plena são:

1. Permitir a si mesmo a tornar-se consciente das oportunidades positivas e carinhosas que estão disponíveis através da seleção e preparação dos alimentos, respeitando a sua própria sabedoria interior.

2. Usar todos os seus sentidos na escolha do que comer para que seja gratificante para você e nutritivo para o seu corpo.

3. Reconhecer respostas aos alimentos (gostos, desgostos ou neutro) sem julgamento.

4. Se tornar consciente da fome e saciedade físicas para guiar suas decisões para começar e parar de comer.

Achei que seria importante falar um pouco mais sobre isso, à medida em que, cada vez, mais vivemos no modo automático, fazendo coisas que, por vezes, nem nos damos conta de como fizemos.

Hoje mesmo recebi a newsletter das meninas da Oficina de Estilo, que falava sobre se permitir viver as tarefas com gosto, aproveitando o momento presente, uma coisa de cada vez, para que cada uma delas seja verdadeiramente especial.

Comer é uma das atividades mais básicas. Pelo menos 3 vezes ao dia nós comemos. Alguns menos, alguns mais. Mas assim como a maioria das coisas que fazemos no dia-a-dia, atropelamos esse momento, sem prestar atenção no sabor dos alimentos, nas sensações que eles nos despertam, e no prazer atrelado à refeição, tenha ela sido feita sozinha ou compartilhada com pessoas queridas.

O excesso de informações veiculadas na internet sobre dietas da moda, sobre os alimentos bonzinhos (funcionais, sem lactose, sem glúten, superfoods, anti-câncer, anti-isso, anti-aquilo, etc.) e sobre os vilões (entopem-aqui, engordam-ali), nos bombardeiam a cada dia, deixando até os nutricionistas mais estudiosos em bioquímica e fisiologia, confusos.

Todo mundo se torna especialista em alimentação, mas ninguém consegue mais sentar à frente de um delicioso bolo de cenoura com cobertura de chocolate sem sentir culpa. Seja pela margarina da cobertura que entope as artérias com sua gordura trans, pelo açúcar do bolo que causa diabetes, pela farinha branca com glúten que inflama o intestino ou pelo ovo de galinhas criadas confinadas e alimentadas com ração transgênica.

Nossa relação com a comida está bem difícil. Temos medo de comer… temos medo de falar sobre comida.

Recentemente, uma apresentadora famosa caçoou nas redes sociais, dizendo para a pessoa tratar seu distúrbio alimentar, por ela querer fazer maionese com iogurte e óleo de coco, em vez de gema e óleo. Eu não acho que isso seja um distúrbio alimentar, mas, se for, a culpa não é nossa. A culpa, na maioria das vezes, é da própria mídia pela qual a apresentadora se tornou famosa. A culpa é da indústria de alimentos, com seu comercial despretensioso no intervalo do seu programa.

A opção por uma alimentação vegetariana também é, frequentemente, encarada como uma modalidade de distúrbio alimentar. A maioria das pessoas que chegam até mim já passou por algum profissional que desencorajou, criticou, zombou, atirou pedra, chamou de irresponsabilidade, ortorexia.

Pode acontecer de ser excesso de zelo, a ponto de se tornar um distúrbio alimentar? Sim. Mas o indivíduo com distúrbio alimentar tem tantas outras questões enraizadas para além da alimentação, que apenas uma avaliação conjunta com o nutricionista, o psicólogo e o psiquiatra poderá confirmar.

Eu parto de uma ótica mais simples. Considero que a pessoa que optou pelo vegetarianismo como estilo de vida, pratica o mindful eating antes mesmo de colocar o alimento no prato. E não é exagero. São valores. Valores são diferentes pra cada pessoa. Não são melhores ou piores, apenas são. Devem ser respeitados.

A querida amiga Fê Canna escreveu brilhantemente sobre isso aqui: “toda vez que eu levanto o garfo, estou sinalizando que eu concordo com o que está no meu prato. Tenho vontade de cuidar para que todo o processo esteja de acordo com os meus valores, e é um exercício diário para sair do automático e questionar. De onde vem? Sobrou? Do que é feito? Mas não é simples, envolve tentativas frustradas, tem ocasiões que eu não tenho vontade de levantar o garfo.”

Os alimentos carregam mais do que aspectos sensoriais em si. Mesmo o mais gostoso, o mais cheiroso, aquele com a textura perfeita para um chef 5 estrelas, pode despertar emoções maravilhosas para uma pessoa, e emoções dolorosas para outra.

Por isso, talvez o passo número 1 desse exercício de comer com atenção plena seja sim, um leve julgamento de valores: o que esse alimento significa para você? Você está confortável em consumi-lo? Que tipo de emoções ele desperta sobre o que você acredita?

(Estou falando isso sem qualquer julgamento sobre o fato de consumir alimentos de origem animal ou não. Esse primeiro passo vale para qualquer alimento, mesmo. Cada pessoa é livre para consumir ou não o que quiser.)

E, a partir do momento que esse alimento faz sentido para você, aí sim é fundamental que você pare na hora da refeição, e prepare todo o ritual para comer com atenção plena: sente-se à mesa, arrume a bagunça, remova as distrações ao redor, os eletrônicos que te conectam ao mundo externo. Use louças e utensílios atrativos. Ajuste a luz de maneira confortável. Toque uma música calma e relaxante. Disponha os alimentos no prato de forma agradável aos seus olhos. E desfrute, tal como fazíamos quando éramos crianças!

Imagem do filme O Fabuloso Destino de Amélie Poulain
Para conhecer mais sobre Mindful Eating, veja esse vídeo e esse site.

Até breve! Seguimos!

Natália Utikava
Nutricionista
CRN/SP 40.387
(11) 95745-0026
P.S.: Esse conteúdo é meramente informativo e não substitui o atendimento nutricional individualizado. Dependendo da fase da vida, ou de alguma condição clínica particular são necessários alguns ajustes, e mesmo suplementação, que somente um profissional especializado poderá orientar. Se você deseja adequar sua alimentação conforme sua rotina, fase da vida e necessidades, entre em contato para agendar uma consulta.


Posted by Natália Utikava