O dilema do vegano

Esses dias eu fui convidada a participar de uma roda de conversa na Danone, para que eles pudessem conhecer melhor sobre Alimentação Plant-Based, e qual o papel dos leites vegetais nesse contexto.

A empresa, com forte tradição pecuária, trouxe para o Brasil a linha de leites vegetais Silk e é um universo completamente novo para eles.

Num primeiro momento eu me questionei sobre se deveria ou não aceitar o convite, confesso.

Primeiro porque, muito antes de ser nutricionista, eu já era ativista pelos direitos dos animais, e empresas como a Danone não são muito bem vistas nessa luta.

Segundo porque, enquanto profissional da saúde, eu também tenho um pouco de resistência com empresas que possuem muitos produtos ultraprocessadosem seu portfólio. (Veja aqui a posição do Ministério da Saúde sobre produtos ultraprocessados).

Mas depois pensei: bom, mas se a empresa está querendo me ouvir, então eu quero falar. Então eu preciso estar lá! E que legal que eles estão trazendo pessoas que vivem isso na prática para dialogar. Que privilégio ter espaço nesse local para dar minha opinião, seja como consumidora vegana, ou como nutricionista que lida com esse público quase que exclusivamente.

danone

O encontro foi muito positivo. A culinarista e proprietária do restaurantevegeTAO, em São Paulo, Regina Czeresnia, compartilhou comigo a consultoria. Esclarecemos questões relacionadas à utilização dos leites vegetais comosubstitutos nutricionais e/ou culinários do leite de vaca, à composição dos produtos, à utilização da fortificação como estratégia de equiparar nutrientes (como o cálcio, por exemplo), às formas de consumo numa rotina alimentar plant-based, entre outras.

Minha intenção aqui não é fazer propaganda da Danone ou da linha Silk, mas sim reconhecer que esta abertura da indústria convencional pode ser muito positiva para o consumidor e para a causa animal. A empresa mostrou-se bastante interessada no universo plant-based, e em como melhorar a composição dos produtos para que eles sejam mais saudáveis, palatáveis e equilibrados.

No mesmo dia do evento eu postei no meu Instagram uma enquete, perguntando aos seguidores o que eles achavam de empresas não veganas que começam a incluir opções veganas na sua linha de produtos.

Geralmente esse assunto gera bastante polêmica, o que eu chamo aqui de “O Dilema do Vegano” parafraseando um dos meus livros favoritos “O Dilema do Onívoro”, do Michael Pollan.

De forma bastante curiosa, 100% das pessoas que responderam se posicionaram a favor.

Trago aqui um resumo das principais opiniões manifestadas:

>>  Veganos não frequentam apenas estabelecimentos veganos. Quando vamos a um restaurante a quilo, por exemplo, colocamos no prato apenas as preparações sem ingredientes de origem animal. Então é a mesma coisa que consumir um leite vegetal de uma empresa que tradicionalmente vendia apenas leite de vaca.

>>  É melhor priorizar a empresa vegana sempre que possível, mas essas empresas maiores vendem em todo supermercado de bairro, e acabam levando essas opções a um número maior de pessoas. Quanto mais gente tendo acesso e consumindo esses produtos, menor a exploração animal dentro de alguns anos.

>>  É legítimo e eu consumo, desde que a empresa não siga uma política de testes em animais.

>>  É interessante porque não são só os veganos que consomem os produtos. No caso do lácteos, pessoas com intolerância à lactose, alergia à proteína do leite de vaca, ou mesmo quem prefere pelo sabor, pode consumir as alternativas vegetais. No fim, o saldo é positivo, porque as pessoas consomem um produto muito mais leve e menos oneroso à saúde, ao ambiente e aos animais. 

Nós sabemos que um ponto primordial do interesse das grandes indústrias em alternativas plant-based é ampliar o lucro. Mas o lucro é sempre um objetivo importante, até mesmo nas empresas que já nascem sendo veganas, não é mesmo?

De toda forma, meu desejo é que cada vez mais empresas tradicionais possam abrir seu leque de produtos para incorporar alternativas sem ingredientes de origem animal. Mas enquanto profissional da saúde eu também milito por produtos mais saudáveis, então também não adianta ser um leite vegetal cheio de açúcar, aromas sintéticos, conservantes e outros aditivos alimentares. Ao meu ver, a equipe da Danone se mostrou bastante disposta a conciliar todos esses aspectos.

No próximo post eu vou falar mais sobre como escolher melhor o seu leite vegetal.

Seguimos!

Natália Utikava
Nutricionista
CRN/SP 40.387


Posted by Natália Utikava